O medroso nunca ganhou uma batalha, saiu da guerra de cabeça baixa. Esse medroso que nunca ganhou uma batalha sempre desistiu no meio, olhou pra trás e se arrependeu – voltou. Se escondendo entre as sobras das trincheiras, se esquivando das balas que brilhavam naquele céu escuro, ia saindo de todos os desafios em que entrava. Com medo de dizer não aos seus ditadores sempre vestia sua roupa camuflada e ia em direção ao nada, mas voltava solitário, envergonhado com suas vestimentas limpas e engomadas.
Diziam que não tinha honra de lutar por seu país, de vestir a carapaça de ideologias que na verdade nunca idealizou, não tinha a força de lutar por um bem maior que nunca estimou porque nunca acreditou que este seja uma verdade.
Um dia tentou explicar para todos que não o queria ouvir dizer que o bem maior se alcança com o a felicidade de cada um, individualmente, e que ele segurando uma arma não era feliz, e ele não queria lutar por uma causa já perdida, não queria seguir sangrando por uma guerra que se perdeu antes de começar, quando os papeis ainda estavam nas mesas e as estratégias ainda não estavam pensadas.
Em seu uniforme vinha escrito “covarde” e em alguns casos se podia até ler “traidor”, mas ele estava em paz, seu medo era verdadeiro e inegável, tinha medo de ganhar essas batalhas, tinha medo, de nessa terra de dor, morrer, sem nenhuma lágrima pra escorrer sobre seu rosto frio.
A cidade sempre o esperava um dia depois das noticias no jornal, o olhavam por trás das cortinas, alguns choravam por seu país ter perdido um soldado, outros riam, alguns não tinham coragem de olhar dentro de seus olhos, também tinham as moças debruçadas nas janelas, as crianças nas ruas. Ele sempre de cabeça baixa seguindo o mesmo caminho tantas vezes percorrido, o caminho de casa. Sabia que ali ia ter alguém que o esperava pro café, com um sorriso no rosto e um abraço de proteção que o fazia corajoso.
Nunca teve a pressa, mas sempre teve a vontade de viver. Esse soldado que nunca ganhou uma batalha, sempre voltou pros braços da amada. E em casa morreu de velhice e felicidade.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
O que te causa mais medo?
O que te causa calafrios mais freqüentemente?
O mal que você pode sofrer, ou o mal que você pode fazer?
Existem demônios mais perigosos do que os que nascem dentro de você?
Mais perigosos do que os que conhecem todos os seus segredos como se esconder da sua visão?
Mais eficientes na hora de te atingir no seu ponto fraco?
Como derrotar um inimigo tão íntimo sem atingir a si mesmo?
Esse inimigo não é íntimo.
Ele sou eu.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Propiedade Privada
A vida é propriedade privada de cada indivíduo, e cada um, mesmo viajando em família leva, em sua mochila, pedaços pesados de solidão. Ainda que nunca tenha estado nem sequer uma vez sozinho, uma vez perdido.
Vai saber do que realmente se aprende, do que nos empurra para frente ou nos prende com cordas grossas a coisas que não queremos lembrar. Vai saber qual o trauma de criança que não nos deixa mais brincar. Qual palavra pronunciada por descuido vai te fazer chorar, lágrimas de dor ou de alegria.
Ainda vão existir inúmeras situações em que tudo o que se pensa conhecer, vai sair de fininho ou mesmo deixar a porta bater, te deixar sozinho sem saber o que fazer, te deixar com uma expressão no olhar que você nunca imaginaria um dia expressar. E que em um único momento em que se quer desabar, chega a coragem te toma pela mão e te leva contra o vento para esse rosto molhado secar. Não se quer, mas acontece. Não sabe o que fazer, mas se aprende.
Por experiência própria se aprende que o que é fácil para a gente é complicado para alguns. Por experiência própria aprendi que é difícil perdoar. Sempre aceitei o erro alheio com respeito e os perdoei, sempre saí de dentro de mim e me coloquei dentro do ser que se equivoca, para ver seus motivos, seus princípios, e os perdoei. Por experiência própria vi que perdoar é difícil porque não me perdoaram, por orgulho ou por princípios, por erros ou equívocos. Por experiências próprias a gente vai descobrindo do que a vida é composta.
A vida é uma propriedade sem muros, sem linhas, sem arame farpado. É colcha de retalhos costurados pela avó que já anda meio surda, que costura nossa vida para dormimos um pouco mais tranqüilos.
sábado, 10 de outubro de 2009
O tempo passa
Um dia a gente fica velho e pára pra pensar que já é tarde pra parar e pensar, já é tarde porque já não se pode dizer o obrigado a pessoa que um dia, quando você pediu uma laranja descascada ela veio com umas laranjas e uma faca, e te ensinou a descascar de três maneiras diferentes e falou ao final “agora descasca você e do jeito você mais gosta”; se percebe que a pessoa que falou que tentar é o primeiro passo para conseguir já não está presente no seu cotidiano, e que você nunca mais ouviu falar dela. É tarde para dedicar, na primeira página do livro, o seu talento motivado e às vezes até exigido a essa pessoa que muitas vezes se sentou ao seu lado e escutou suas blasfêmias e suas fantasias sem cair no sono, e que ao final simplesmente te olhou e falou o quão era bonito ouvir sua voz dizer essas palavras. Um dia a gente percebe que a mulher que deita ao nosso lado só esta ai porque alguém te falou que se amam as pessoas e não os sexos, que um dia quando você provou o beijo tão condenado não sentiu nada além de felicidade, e que a culpa não veio nem a espiar pela greta da porta meio aberta. É tarde pra agradecer pelo que realmente te ensinou o seu professor, seu vizinho ou o seu avô.
Chega um dia que a gente olha pra trás e percebe que sua vida não é nada além do que você aprendeu com os outros, que você é a melhor parte de cada um com que você conheceu.
Já é tarde e não adianta lamentar, já não se pode mesmo agradecer ou se desculpar. Ainda há tempo pros que agora estão. Não deixe mais o tempo passar. E pros que já se foram aqui fica a palavra que um dia faltou. E pras outras pessoas que virão fica a dica e o arrependimento em poesia, fica vontade de poder voltar e ao mesmo tempo seguir, fica aqui o registro de alguém que não soube, em sua totalidade, viver, porque faltou, faltou a cabeça erguida e a coragem de agradecer.
O tempo nunca pára, e se você resolver começar agora, vai rápido porque cada minuto que passa é um minuto a perder.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Complexo de Fênix
Tudo estranho. De repente tudo parece carecer de sentido. Como se já tivesse havido algum um dia.Mas não reclamo e nem lamento, isso chega excitante, além de doloroso. Eu sei, eu falei que não tinha sentido.A autodestruição pode ser uma bênção quando o que tiver de ser destruído é o que você acreditava ser você, e não a essência de todos os seres que você um dia chamou e chamará de Eu.
A falência de tudo eu encaro como um passaporte para o que está por vir. A morte da Fênix é o que precede seu nascimento. Então, que seja bem-vindo o caos. Eu o abraço como um aliado. Nado a favor da maré. Vou de encontro ao próximo despertar. Não quero saber da perspectiva, eu nunca me negaria a chance de acordar mais uma vez.
Afinal, o que é tudo isso além de um eterno falso-despertar?
A falência de tudo eu encaro como um passaporte para o que está por vir. A morte da Fênix é o que precede seu nascimento. Então, que seja bem-vindo o caos. Eu o abraço como um aliado. Nado a favor da maré. Vou de encontro ao próximo despertar. Não quero saber da perspectiva, eu nunca me negaria a chance de acordar mais uma vez.
Afinal, o que é tudo isso além de um eterno falso-despertar?
domingo, 4 de outubro de 2009
Soneto da Saudade
Saudade é como véu de cachoeira:
Intensa, bela, triste e derramada.
Que fere qual machado na madeira,
Mas mesmo assim perfuma a madrugada.
É mar que invade o corpo mansamente,
Naufrágio que não mata mas sufoca,
Tristeza do palhaço adolescente,
Sem palco, sem sorriso e sem beijoca.
Trompete sem pulmão, sem improviso,
Canção da lua plúmbea nos abrolhos,
Mas fujo dessa chuva de granizo,
Preciso da menina dos meus olhos.
Encontro minha paz no seu sorriso
E só me sinto em casa nos seus olhos.
Intensa, bela, triste e derramada.
Que fere qual machado na madeira,
Mas mesmo assim perfuma a madrugada.
É mar que invade o corpo mansamente,
Naufrágio que não mata mas sufoca,
Tristeza do palhaço adolescente,
Sem palco, sem sorriso e sem beijoca.
Trompete sem pulmão, sem improviso,
Canção da lua plúmbea nos abrolhos,
Mas fujo dessa chuva de granizo,
Preciso da menina dos meus olhos.
Encontro minha paz no seu sorriso
E só me sinto em casa nos seus olhos.
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